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O Oitavo Símbolo 18 Setembro, 2006

Posted by vicentetavares in Contos.
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A tempestade lá fora parecia querer avisar ao mundo que havia algo errado. O vento uivava dizendo que aquela noite não seria uma noite qualquer.

Era uma sexta-feira, sinistra, fria… Perfeita!

Andrew Scott estava na cabeceira da mesa, os olhos fechados, seus lábios se moviam, não havia som, nenhuma palavra. Apenas a chuva caía sem trégua do lado de fora, um relâmpago ocasional cortava o céu e iluminava os rostos dos cinco jovens presentes na sala.

Não havia luz, apenas a pálida e bruxuleante iluminação de cinco velas postas num pentagrama, sobre a mesa um tabuleiro oui-já (as letras do alfabeto e os números dispostos num círculo além das palavras bem, mal, sim e não) e o copo virado de boca para baixo. O espírito de Anderson não poderia se comunicar com eles sem o copo.

Da última vez que tentaram, exatamente há uma semana, o copo havia se movido na direção de uma letra, mas David Robert, o mais jovem entre eles, havia se assustado e derrubado, sem querer, o copo no chão, espatifando-o em pequenos cacos.

Tentaram novamente naquela mesma noite mas não conseguiram.

O próprio David confessara não acreditar que aquele ritual fosse mesmo funcionar, apesar de suas experiências anteriores com o ocultismo não acreditava que o copo fosse se mover realmente e por isso se assustou.

– Não vai acontecer dessa vez – garantiu David quando, ao iniciar a sessão, todos lançaram olhares em sua direção.

– David, você sabe como isso é importante pra mim – falou Andrew ao amigo.

E sabia mesmo.

David sempre foi o melhor amigo dos irmãos Scott; Andrew e Anderson conheceram David no primeiro dia de aula ainda no primário e desde aquela data se tornaram inseparáveis. Só uma coisa poderia separá-los: a morte, era o que todos diziam.

E de fato foi o que os separou.

Eles voltavam de uma festa, bêbados e Anderson dirigia o carro quando um caminhão veio na direção contrária, nem mesmo a adrenalina injetada em seu cérebro pela situação de perigo extremo foi capaz de lhe devolver os reflexos entorpecidos pelo álcool.

Com o impacto, Anderson foi lançado para frente e de volta para trás, quebrou o pescoço instantaneamente.

Andrew, no banco de trás com David, apesar de se ferir gravemente nas ferragens que lhe atravessaram o abdômen permanecia num estado intermediário entre a consciência e a inconsciência.

David batera a cabeça violentamente e jazia inconsciente, mas bem.

Quem sofrera com o impacto foi o quarto passageiro, sentado no banco da frente.

Nicholas Slatter foi arremessado para fora e estava caído sobre o capô, seu estado era gravíssimo, estava vivo, mas por pouco tempo se não fosse socorrido.

A lembrança do acidente veio a mente de David, mas ele a afastou como uma mosca incômoda, e era fato que desde a morte de Anderson, Andrew não foi mais visto sorrindo.

Apenas para aplacar a dor do amigo que David havia concordado com a sessão mediúnica, não acreditava realmente naquela besteira, daí seu espanto quando o copo se moveu.

Todos ao redor da mesa estavam preparados, eram os melhores amigos de Andrew e se ele precisava de uma sessão mediúnica para falar com seu irmão morto, então todos ajudariam.

A idéia viera de Alan Walker, o sempre esotérico Alan, que se achava especial por ser o sétimo filho da família Walker, morava sozinho com sua mãe, próximo a Universidade. Acreditava que sua existência se deu para que cumprisse um papel vital na ordem cósmica das coisas, o que quer que isso signifique.

Alan Walker na verdade, não possuía conhecimento para uma sessão mediúnica, foi então que Steve Seigner decidiu intervir, tinha livros sobre ocultismo, dizia entender de rituais (embora nunca houvesse realizado nenhum) e era experiente nessas coisas.

Conheceu Andrew e os outros quando os socorreu das ferragens do acidente de carro, depois disso tornou-se grande amigo de todos.

Nicholas Slatter foi o primeiro a ser socorrido por Steve e estava ali apenas para acompanhar seus amigos, não duvidava dessas coisas pois ele próprio havia experimentado uma visita ao outro mundo, quando foi um internado após o acidente. Estava em estado crítico e teve sua morte oficialmente decretada por um médico depois de permanecer em coma por uma semana.

Despertou no necrotério exatamente sete horas após sua morte…

De uma forma ou de outra cada um que estava naquela sala havia experimentado as forças do oculto e juravam poder sentir tais energias fluindo por todo seu corpo, cada célula pulsando em energia mística.

Estavam ali os cinco pseudo-ocultistas sentados de olhos bem fechados, pois não deveriam ver, mas sentir. Somente seus lábios se moviam numa reza silenciosa, pois não deveriam falar, mas ouvir.

E ouviram.

Ouviram a tempestade cada vez mais enfurecida, como se quisesse impedi-los de prosseguir; se tivessem com as janelas do apartamento abertas poderiam ver que as nuvens se contorciam em formas hediondas e grotescas.

Mas tudo estava fechado.

Cada porta, janela e fresta do apartamento, mas sentiram uma brisa suave, porém gélida atravessar o aposento e seus olhos se abriram, simultaneamente sem que a reza silenciosa fosse interrompida.

Lançaram olhares furtivos a David, como se verificassem se o amigo suportaria.

David retribuiu-lhes com um olhar de determinação.

O ar à volta de todos tornou-se gelado… Estava acontecendo…

Um calafrio percorreu a espinha de Andrew, tinha a certeza de que um dedo gelado havia lhe tocado as costas de baixo à cima, mas não havia nada nesse mundo ou em outro que pudesse desvia-lo do seu objetivo.

Um leve tremor varreu a mesa.

Estava acontecendo…