O Beco 13 Novembro, 2006
Posted by vicentetavares in Contos.add a comment
A noite estava muito fria.
A cidade parecia mais sinistra e sombria que o normal, talvez fosse pela névoa densa, quase sobrenatural que permeava as ruas ou talvez fosse o silêncio absoluto e ausência de qualquer movimento que transformavam as suas enlameadas numa pintura sombria.
A madrugada avançava, mas não havia luz, apesar da lua cheia, pois pesadas nuvens escureciam todo o céu.
Era uma noite de trevas, daquelas em que os seres que povoam os pesadelos das crianças estavam à solta espreitando.
Em meio a esse cenário lúgubre, um pequeno ser se movimentava quebrando a inércia daquele momento. Um pequeno gato faminto saltou de um telhado sobre um muro. Farejou o ar e perscrutou a escuridão com seus olhos de amarelo intenso e pupilas verticais.
Com seus pêlos completamente negros ele desapareceu em meio às brumas quando saltou do muro para o chão.
Como uma sombra se movimentando rua abaixo o gato observava cada detalhe. Subitamente parou em alerta, farejou o ar novamente para ter certeza. Miou alto na escuridão e, em resposta ao seu chamado, dezenas de gatos surgiram saindo de bueiros, telhados, e latas de lixo.
Logo a rua tornou-se uma fúnebre sessão de miados estridentes.
Seguindo o pequeno gato preto todos os demais avançaram pela rua até pararem diante de um beco imundo e entulhado de lixo, mas o cheiro que exalava não era apenas o lixo, era o cheiro de sangue. Sangue fresco.
Enquanto os gatos lambiam uma poça de sangue na saída do beco, o pequeno gato caminhou lentamente entrando no beco seguindo um filete de sangue até sua origem, como se o pequeno gato fosse realmemnte curioso.
Em meio aos entulhos de lixo havia um corpo jogado com os braços lânguidos num ângulo improvável. Sacos de lixo e jornais velhos cobriam parte do cadáver e escondiam seu rosto.
Subitamente todos os gatos, exceto o pequeno gato preto, miaram alto saíram correndo daquele lugar. Um cheiro estranho permeou o ar.
Alguma coisa assustou os gatos…
Vida de Lagartixa 10 Novembro, 2006
Posted by vicentetavares in Contos.add a comment
Então quer dizer que você acha sua vida difícil?
Eu vou contar um pouco sobre a minha vida e veremos o que acha.
Bem vamos começar pelo início.
Meu nome é Slark. Eu sou uma lagartixa, é claro que sou macho! Só porque sou lagartixa tenho que ser fêmea?
Sou ainda bem jovem, não que haja muitas lagartixas idosas aí, mas você entendeu o que quis dizer.
Sou muito pequeno para minha espécie, branquelo e mirradinho, mas até que sou bem charmoso.
Nasci num celeiro bem legal, boa comida, bem quentinho. O lugar perfeito para uma família de lagartixas. Até que aquelas corujas chegaram se achando “donas do pedaço”.
Bem, na verdade, elas acabaram tomando conta do lugar mesmo.
Por isso minha família teve que mudar pelo menos o que sobrou da minha família, a maioria virou jantar de coruja, que pena.
Meu pai, que era o mais forte, ia sempre na frente verificando se era seguro.
Ele era bem esperto, já tinha ido até a casa e encontrou um lugar ideal para ficarmos, bem atrás do guarda roupas. É claro que o difícil seria chegar até lá.
Mas estou me adiantando. Meu pai estava quase lá, faltava atravessar a velha horta e chegaríamos a casa.
Aquela era minha primeira grande aventura e eu estava muito nervoso.
Meu pai colocou a cabeça pra fora da lata de lixo onde estávamos escondidos, verificou se estava tudo tranquilo e disparou a correr quando estava no meio da hora ouvimos um grito:
– Cuidado!!!