Pactos e Mentiras – Parte I 20 Outubro, 2007
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George Shawn caminhava confiante pela rua deserta apesar da chuva forte que caía deixando-o completamente encharcado.
Estava apressado e tenso, pois aquela noite não estava sendo uma de suas melhores e ainda havia mais um encontro antes que os preparativos começassem.
Trezentos anos haviam se passado desde a ultima vez em que aquilo acontecera. Entretanto não era isso que o preocupava, pois sabia o que devia ser feito e sabia como fazer, mas porque aquele mendigo queria vê-lo?
Pela primeira vez em muito tempo Shawn sentiu medo.
Quando chegou ao local marcado, um cruzamento isolado, Shawn respirou fundo controlando a respiração e os nervos.
Sem a visão, precisava confiar em seus outros sentidos para encontrar o que procurava. Imediatamente um cheiro característico chegou às suas narinas.
- Gato? – disse ele consigo mesmo.
O miado veio em seguida confirmando suas suspeitas, mas onde estava aquele homem (se é que podia chama-lo assim) que deveria encontrar?
- não consegue me localizar não é? – disse um mendigo que estava deitado na calçada ao lado do gato.
O gato ronronou quando o mendigo fez-lhe um carinho.
Num movimento ágil o homem colocou-se de pé para revelar, não um mendigo decrépito e raquítico de fome, mas um homem robusto e saudável.
Seu corpo possuía diversas tatuagens, cicatrizes e marcas. Mas havia uma marca que o tornara diferente de qualquer outro homem na Terra.
Uma marca que fazia a morte se afastar dele. A marca da maldição de Deus.
O homem parou diante de Sawn e embora fosse visivelmente menor que o gigante de ébano era claro perceber quem possuía o controle da situação.
- George Shawn – disse com voz firme.
- Caim – disse Shawn num sussurro como se temesse pronunciar aquele nome – Faz muito tempo…
- Talvez pra você, mortal, pois pra mim três séculos são como um instante.
Shawn sabia que aquele ser diante dele era provavelmente a criatura mais antiga na face da Terra, o primeiro homicida, amaldiçoado por Deus, o filho de Adão e Eva exilado do paraíso para as Terras de Nod.
Ironicamente Caim, o amaldiçoado, era pai de Enoque, um enviado da Luz que de tão abençoado ascendeu aos céus sem provar a morte.
Mas Shawn sabia que se havia sido convocado era por um motivo e era importante.
- Acredito que já sabe por que o chamei aqui. – falou Caim
- Eu… – titubeou Shawn – Não, eu não sei.
- Vim cobrar uma velha dívida. – Caim tinha um sorriso malicioso no rosto – Acho que se lembra, não é?
Shawn parou por um momento, seu corpo estremeceu ante a lembrança da dívida que assumira com o amaldiçoado séculos atrás.
Durante muito tempo o medo dessa cobrança o perseguiu como um fantasma. Sempre presente a assombrá-lo. E agora finalmente havia chegado à hora que ele tanto temia.
O que Caim poderia pedir que ele próprio não pudesse fazer? Mas Shawn sabia que Caim era ardiloso e astuto o bastante para manipular as pessoas a fazerem o que ele quer, como agora…
Shawn lembrou-se do dia em que conheceu Caim, séculos atrás, quando ainda era um escravo e faria qualquer coisa para se libertar, até mesmo sua alma venderia.
Foi o que ele disse a Caim.
- Não será necessário. – falou Caim na época – Tenho certeza que encontrará melhor utilidade para sua alma. Mas se eu o libertar me fará um favor.
- Qual favor?
- Quando for a hora de cobrar essa divida eu lhe direi.
Caim naquela época era exatamente igual ao que é hoje, sua aparência permanece inalterada através dos séculos.
Shawn entretanto estava no auge do vigor. Alto, robusto, forte. Era um escravo valiosíssimo e sua dona não aceitaria perdê-lo, ela era apaixonada por aqueles olhos azuis e músculos rijos.
Shawn ainda não havia perdido sua visão, e já era muito poderoso com seus ritos xamânicos, mas ainda assim era um escravo. E odiava aquela situação mais do que tudo, por isso acertou o acordo com Caim sem ressalvas.
Com o passar dos séculos Shawn aprendeu os meios para prolongar sua vida e principalmente aprendeu a temer Caim. Se na época em que era um escravo soubesse o que sabe hoje sobre o amaldiçoado jamais teria aceitado tal acordo.
Entretanto o que estava feito não podia ser mudado e havia chegado o momento de pagar a divida.
- O que quer que eu faça – disse Shawn voltando de suas lembranças.
Pactos e Mentiras – Parte II 20 Outubro, 2007
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- Acredito que conheça um certo David Salvatori? – Caim parecia ansioso e caminhava em volta de Shawn deixando que a chuva o molhasse completamente.
- O membro mais jovem da família Salvatori, filho de Giuseppe Salvatori.
- Sim, o filho bastardo e secreto de Giuseppe, conhece bem a historia, não é?
- Não exatamente. Soube apenas que Giuseppe quebrou os votos e teve um filho, Davi ou David, mas a criança e a mãe morreram no parto, Giuseppe enlouqueceu e sumiu. O que há de especial?
- Duas coisas – falou Caim – Primeiro: Apenas parte dessa historia é verdade. David e sua mãe não morreram no parto e segundo: David é o hospedeiro perfeito para H’taed.
Shawn sentiu seu corpo estremecer por completo num segundo ele compreendeu o que Caim queria dizer.
- David é o Dragão – falou Shawn.
- Correção: David e H’taed formarão o Dragão.
- Porque? Porque David? O que o torna tão especial?
- Os Salvatori são uma linhagem antiga, infelizmente os três últimos Salvatori “puros” que restaram foram Vitorino, Giuseppe e Nathanael.
Vitorino, o mais jovem virou padre e sempre foi fiel aos votos. Nathanael, é estéril e o mais velho Giuseppe nos fez o favor de quebrar seus votos e ter um filho. Um filho, David, que nasceu num raro alinhamento estelar que o concede uma predisposição para o poder incomensurável do Dragão.
- Mas porque não tomou a criança quando ainda era um bebê?
- Quando David nasceu eu fui pessoalmente buscá-la, mas cheguei tarde e a crinça havia fugido com o pai. Eu tentei arrancar da mãe para onde fugiram, mas nem no instante de sua morte ela revelou o paradeiro dos dois.
As palavras de Caim saíram com naturalidade assombrosa, não havia qualquer demonstração de emoção ou sentimento. Era um assassino frio e cruel.
- Soube que a criança foi entregue a uma família nos Estados Unidos enquanto o pai foi para uma ordem religiosa na Europa.
Durante vários anos eu procurei por essa criança sem nenhum sucesso.
Mas tive uma visão. Um sonho que me forneceu uma pista. Uma pista que segui e que me trouxe até esse momento.
Só então compreendi como uma simples criança pôde permanecer oculta todo esse tempo: Havia alguém garantindo que David continuasse escondido. Alguém poderoso e tolo.
- Louis! – concluiu Shawn – Um dos pupilos de Louis chama-se David. Ele é David Salvatori?
- Exato. E se não estou enganado há um dos seus pupilos entre eles.
Shawn assentiu com a cabeça já sabendo qual era o favor que Caim pediria.
- Tudo o que precisa fazer é conduzi-los até o local onde o ritual acontecerá, tire Louis do caminho e o resto H’taed fará.
- Está me pedindo para fazer o demônio mais poderoso do inferno para a Terra.
- H’taed já está na Terra, apenas permanece adormecido aguardando o hospedeiro certo.
-Mas todos esses séculos temos realizado o ritual…
- Apenas para mantê-lo alimentado – disse Caim com desprezo – Para poupar-lhe do trabalho de fazer isso por si próprio.
- Compreenda que o exercito das Trevas nunca esteve tão poderoso. Quando o Dragão surgir será o principio do fim dos tempos.
- Quem vencerá? A pergunta de Shawn permaneceu ecoando na noite em meio a chuva que caia insistente.