Fábio dos Santos e o Capitão 12 Fevereiro, 2009
Posted by vicentetavares in Contos.trackback
Nem todo policial é corrupto, isso todo mundo sabe. Mas quando são eles se tornam o melhor amigo ou o pior inimigo que um traficante pode ter. Depende do pagamento, alias tem que ser tudo certinho com eles. Que ironia. Traficante que não paga o valor combinado morre, quando atrasam também morrem. Funciona como uma loteria, ou melhor, como uma roleta russa. Quando alguém atrasa o pagamento eles escolhem um para servir de exemplo pros demais. É claro que os menores, menos importantes, dançam primeiro.
Essa noite Fábio dos Santos tinha o bilhete premiado, e já sabia disso, por isso corria desesperado pelas vielas da favela onde morava. Seu problema tinha sido a concorrência desleal dos policiais. Por azar ou vacilo Fábio havia sido pego numa revista por um policial novato na área. Levou não apenas o dinheiro do pagamento como todo o pó que tinha para vender. Grande! Numa única noite atrasaria a entrega da mercadoria e o pagamento do fornecedor.
Sua ingenuidade foi achar que o Capitão ia “aliviar” o lado dele, quem sabe dar mais uns dias para que ele recuperasse o dinheiro.
– Ta me achando com cara de otário? – disse o capitão antes que Fábio completasse a frase. O tabefe acertou no mesmo lugar que o novato havia batido, há poucos minutos.
Esses putos devem fazer mira pra bater sempre no mesmo lugar.
É claro que o capitão não ia perdoar a divida, nem esperar mais num minuto sequer.
– Cadê minha grana, vagabundo? – o clique seco da arma engatilhada fez com que Fábio perdesse o juízo de vez.
Que outra escolha tinha? Era tomar um tiro na cabeça ou tentar fugir e levar um tiro nas costas. Escolheu a segunda e deu um soco que pegou o capitão de surpresa. Ninguém era louco de tentar bater no capitão. Só um cadáver ambulante como aquele desesperado que descia a favela aos pulos indo para lugar nenhum.
O tiro do policial passou raspando na cabeça de Fábio e começou a perseguição. Fábio tinha duas coisas a seu favor. O elemento surpresa e o conhecimento da favela. O capitão acostumado com anos de corrupção estava fora de forma, mas tinha a obstinação, uma 9 mm e boa pontaria. A caçada estava equilibrada e ambos seguiriam até os limites de suas forças. Um movido pelo desespero de continuar vivo, outro pela obstinação de sua maldade. Ninguém poderia ficar devendo ao capitão, dar-lhe um soco e ainda ficar vivo. Tinha que servir de exemplo.
Fábio desceu a favela até chegar ao asfalto. Ali talvez pudesse se esconder ou roubar um carro, ou melhor, uma moto e fugir. Daria um jeito de buscar sua mulher e seu filho depois. O mais importante agora era sobreviver. E quando saiu da favela viu uma chance se abrir à sua frente. O “beco do gato” seria sua salvação, pois onde terminava a viela começava o desmanche do Alemão. Numa noite escura como aquela seria fácil se esconder no meio dos carros. Talvez até armar uma emboscada com seu revolver .38. Só precisava pular o alambrado que dividia a vida de sua morte.
Foi aí que ouviu o som da sua própria morte. Não no estampido de uma arma, mas na voz de uma criança.
– Pai?
Seu filho Fabinho estava voltando do farol onde vendia balas. Viu o pai entrar na viela e achou estranho.
Quando estava prestes a pular ouviu seu filho. Ele sabia que se o capitão encontrasse seu filho ali certamente o mataria. Precisava escondê-lo.
– Merda, moleque, que porra você ta fazendo aqui? – Gritou exasperado e sem explicar nada jogou o filho com força no meio dos sacos de lixo que entulhavam o beco. Em meio as lagrimas e duvidas Fabinho esboçou uma pergunta que foi silenciada por um saco de lixo que lhe tapou a cara, escondendo-o por completo.
– Nem um pio e não se mexe – gritou a ordem para o filho e ficou ali no meio do beco empunhando o revolver que tinha consigo. Sabia que só teria uma chance, talvez nenhuma.
Não havia mais tempo para fugir, sua ultima chance, se tivesse, seria acertar o capitão assim que aparecesse na viela. Mas só teria essa chance se o capitão estivesse distraído. Teve sorte. Ali, bem no meio da viela o capitão apareceu caçando sua presa.
Blam, blam, blam.
Três tiros. Bem no peito. Num baque surdo com a violência do impacto das balas o capitão caiu no chão. Fábio tremia dos pés à cabeça. Não que fosse o primeiro homem que matava, mas porque tinha a certeza que morreria ali.
– Vacilou capitão. – falou ele se aproximando do corpo para comprovar a morte. Mirou na cabeça para um último tiro, mas recuou. Não tinha a frieza necessária para isso.
Baixou a arma e virou caminhando devagar para dentro do beco para levar seu filho pra casa. Aceitaria a oferta da esposa, tantas vezes rejeitada, de largar tudo e ir para o nordeste onde uma pequena roça da sogra seria o bastante para sustentar a família. Viveria ainda na miséria, mas seria sem policiais, assassinos, e sem faróis para vender bala e sem drogas para traficar. Fabinho que espiou tudo de seu esconderijo ameaçou sair quando viu o rosto do capitão atrás de seu pai. Quis gritar um aviso, mas a voz não saiu. Seu olhar apavorado, no entanto, revelou ao seu pai que o capitão não estava morto.
Mais três tiros foram disparados, dessa vez da 9mm do policial. Esses não encontraram a proteção de um colete à prova de balas.
Fábio dos Santos caiu morto no chão sem ao menos explicar ao filho que estava protegendo-o quando o jogou no meio do lixo. Mas Fabinho sabia disso e sabia que seu silêncio deveria durar até que o policial terminasse de deixar a viela cambaleando e segurando o peito dolorido.
Fábio viu seu pai morrer naquela noite e chorou. Silenciosamente, como sempre chorava.
Kralho.
Sempre que leio seus contos eu viajo imaginando tudo, eu consigo ver a cena hauahua
Muito bom esse conto.
[]’s