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Só o Essencial #2 – Alan Moore 10 Junho, 2009

Posted by vicentetavares in Essencial.
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Se você se interessa por quadrinhos ou cinema certamente já ouviu o nome de Alan Moore sendo pronunciado, e certamente foi dito com algum comentário sobre sua genialidade ou seu jeito hippie. Barbudo e cabeludo, com cara de poucos amigos esse inglês nasceu em North Hampton, Inglaterra em 18 de novembro de 1953.
Seu trabalho revolucionou a maneira de fazer e ler quadrinhos. Foi Moore um dos primeiros a tratar de temas mais densos, criando os chamados quadrinhos adultos, que na DC Comics – editora na qual Alan Moore trabalhou e arrumou muitos conflitos – deu origem ao selo Vertigo.
Ao longo de sua carreira trabalhou em diversos projetos e com diversos personagens, não apenas na DC Comics, mas também na Image Comics, no estúdio Wildstorm, e em outras incluindo sua própria editora, a Mad Love Publishing.
Poderíamos falar sobre cada um dos trabalhos dele, ou até mesmo dos melhores, mas isso seria contra a proposta dessa coluna, então vamos ao essencial, e antes que alguém me atire uma pedra: as histórias que vou tratar aqui são as que EU considero essenciais, se aquela história magnífica do Alan Moore que você tanto adora ficou de fora da lista, não se aflija, coloque suas observações sobre ela nos comentários.
Monstro do Pântano
A estréia de sucesso de Alan Moore foi com a série mensal de Monstro do Pântano. Foi ali que inaugurou a linha Vertigo de temas mais densos e sombrios, psicológicos e adultos. Mas o comentário sobre a série nem se deve ao trabalho excelente que ele fez com o Monstro, mas sim com a criação de um personagem fantástico que todos conhecem: John Constantine.
Onde foi que eu já vi isso antes? Sim, realmente a cara do John Constantine não é estranha, temos a impressão de que já o vimos em algum lugar antes. Trata-se nada menos do que o cantor Sting, vocalista da banda inglesa The Police (que, aliás, é muito boa). Moore colocou a estranha figura que aparece na edição #37 da revista Saga of the Swamp Thing, com a cara do Sting a pedido dos desenhistas da revista Steve Bissette e John Totleben.
Os chefões da DC entraram em pânico, temendo um processo por parte do cantor por uso indevido de sua imagem, especialmente se lembrarmos que Constantine é um fumante, imoral, entre outras características menos louváveis. Acontece que todo mundo adorou o personagem, incluindo o próprio Sting que teria dito numa entrevista que ficou lisonjeado pela homenagem. Num artigo futuro vou falar de John Constantine, e provavelmente do Monstro do Pântano também.
V de Vingança
Com mérito e louvor essa série leva o título de obra-prima de Alan Moore – título que tem que dividir com Watchmen. Publicada diversas vezes no Brasil, pela Editora Globo, Via Lettera e Panini, minha versão favorita é mesmo a da Panini, que manteve um volume único com algum material extra.
A trama gira em torno do Anarquista conhecido como V, misterioso, usa uma máscara com o rosto de Guy Fawkes. V é um terrorista contra um regime totalitário numa Londres fictícia, dominada por um ditador com ares de Hitler.
Surge a bela Eve que passa a ser uma “aprendiz” de V, enquanto a trama se desenrola V parece saber exatamente o que fazer para executar seus ousados planos. A maneira como é apresentada torna essa história magnífica. Infelizmente não posso falar muito mais sem estragar algumas surpresas. No artigo específico sobre essa série contarei mais detalhes.
Onde foi que eu já vi isso antes? A história de uma Londres fascista, bem nos moldes do ambiente opressivo do livro genial de George Orwell, 1984, infelizmente ambas as obras foram baseadas na nossa realidade, ou seja, o mundo que esses dois autores apresentam não é tão fictício assim.
A Piada Mortal
Não considero A Piada Mortal como a melhor história do Batman como já li em algumas revistas e sites especializados, mas sem dúvida considero como a melhor história do Coringa, por que, assim como o filme O Cavaleiro das Trevas, o “palhaço” do crime rouba a cena nessa história.
Em poucas palavras essa Graphic Novel de apenas 46 páginas mudou a forma como vemos o Coringa, ele deixou de ser o palhaço do crime – idéia original de Bill Finger e Jerry Robinson, seus criadores, para se tornar o reflexo distorcido do próprio Batman.
Além de contar uma possível e provável (pra mim definitiva) origem do Coringa, a história segue com um coringa psicótico, assassino frio e insano. Verdadeiramente e assustadoramente insano, nada de palhaço do crime! Ele não faz rir, mas causa calafrios. Ele tenta provar que qualquer pessoa normal pode enlouquecer se for pressionado demais. E o alvo para provar sua tese é ninguém menos que o Comissário Gordon.
A sequência clássica que acredito captura bem o espírito da revista é quando o Coringa atira na filha do Comissário, Bárbara Gordon, que naquela época vestia-se de Batmoça e combatia o crime. Observe as expressões do Coringa e da Bárbara, com um pouco de boa vontade você vai conseguir sentir o frio na barriga que a moça deve ter sentido, um instante antes de levar o tiro.
Onde foi que eu já vi isso antes? O monólogo do Batman no inicio da Graphic Novel certamente serviu de inspiração para o incrível dialogo entre os dois no filme Batman – O Cavaleiro das Trevas. Recomendo a leitura do quadrinho e assistir o filme em seguida. Vão perceber que o Coringa interpretado por Heath Ledger mostra exatamente esse vilão psicótico e nada tem a ver com a péssima atuação de Jack Nicholson no primeiro filme do mascarado.
Watchmen
Que me perdoem os fãs das outras obras do Alan Moore, mas Watchmen ganha o título de obra-prima (eu já mencionei a divisão com V de Vingança). História incrivelmente complexa, mas ao mesmo tempo bem amarrada, intrigante, você só descobre o que ele quer que você descubra e no momento em que ele deseja, e o pior (ou melhor) é que o tempo todo a informação estava lá, só não tínhamos como percebê-la antes, assim como os grandes filmes de suspense.
A história trata de um mundo a beira do Apocalipse e o estopim de toda a trama é a morte de Edward Blake, o Comediante, um dos vigilantes mascarados que atuaram no mundo na década de 70, apenas lembrando que a história se passa em 1985 e nas palavras do próprio autor:
“Começando de onde George Orwell parou”
É fácil perceber as referencias e preferência de Moore pela obra de Orwell. Os personagens usados são inéditos, mas apenas porque a DC comics não permitiu que ele usasse os personagens da Charlton, uma editora menor comprada pela DC, de onde saíram personagens como o Questao, o Capitão Atomo entre outros.
A Edição definitiva da Panini está realmente fabulosa e adoraria receber algum patrocínio por estar fazendo essa propaganda, mas o fato é que realmente o trabalho ficou impecável. Capa dura, papel de qualidade, material adicional muito bacana, enfim valeu os R$ 96,00 investidos.
O gibi Contos do Cargueiro Negro que permeia toda a trama foi mais uma sacada de gênio do Alan Moore, pois nesse gibi dentro do gibi um garoto vê um personagem passando pelos mesmos dilemas e situações que a trama está mostrando, uma parábola que nos faz pensar: Tudo o que estamos lendo nesse gibi é o que está acontecendo com o mundo a nossa volta e não estamos percebendo?
Bem essa série em 12 edições foi tão boa que eu pretendo falar especificamente dela num artigo futuro nessa coluna. Se eu tiver que recomendar a leitura de UMA história do Alan Moore seria Watchmen e V de Vingança! :)
Onde foi que eu já vi isso antes? Aqui a referencia é inversa, o grande publico viu algo semelhante a Watchmen na animação infantil (?) da Disney/Pixar Os Incríveis. Heróis que são marginalizados pela sociedade, que vivem ocultos, heróis com problemas bastante mundanos, como um cinto que não fecha porque a barriga cresceu muito depois do casamento. Sem contar a impagável sequência da baixinha Edna Moda explicando porque não vai colocar uma capa para o Sr, Incrivel. Ou ninguém se lembra de um certo personagem virando a mascara de Rorscharch que o atrapalhou bastante, ou então o Dollar Bill que acabou morrendo por que a capa ficou presa…
A Liga Extraordinária
Pra começar a falar dos dois volumes da Graphic Novel de Liga Extraordinária, podemos começar esquecendo que um dia um filme foi feito. Tom Sawyer ninguém merece.
A história em quadrinhos é muito boa, a começar pela idéia de reunir os maiores heróis da literatura inglesa. Senti falta de alguns personagens igualmente clássicos, mas quem sabe eu mesmo não aproveito essa idéia num conto? Voltando a história, o grupo é composto por: a líder Mina Harker, uma vampira, o traiçoeiro e amoral homem invisível, o aventureiro Alan Quatermain, o genial doutor Jack e sua contraparte monstruosa Mr. Hyde e o honrado e destemido Capitão Nemo completando o time.
Todos heróis (ou nem tanto assim) a serviço da Coroa. Os dois volumes são agradáveis, embora eu não tenha gostado muito do desenho (a ponto de não me recordar o nome do desenhista), como eu disse a idéia é ótima, e o roteiro também, mas eu prefiro o volume dois talvez por achar mais violento.
Só pra constar alguns personagens da literatura que acrescentaria seriam: Dorian Grey (O retrato de Dorian Grey de Oscar Wylde), o único acerto do filme todo; Tarzan, Sherlock Holmes e o Profo. Moriarty, Dr. Victor Von Frankenstein e sua criatura. Alias isso me faz pensar na idéia de uma coluna Só o Essencial dos Clássicos da Literatura…
Onde foi que eu já vi isso antes? Alan Moore não precisa criar personagens novos para criar histórias incríveis, exemplo disso é a Liga Extraordinária, ou a liga dos cavalheiros extraordinários. Todos os principais personagens saíram dos clássicos da literatura, Alan Quatermain, das Minas do Rei Salomão de H. Rider Haggard, Capitão Nemo e seu submarino incrível do 20 mil léguas submarinas de Julio Verne, Mina Harker de Drácula, de Bram Stocker, O homem invisível da obra homônima de H.G. Wells, Dr. Jekyll e Mr. Hyde do Médico e o Monstro de Louis Stevenson
Do Inferno
Existe muito a respeito da graphic novel Do Inferno, do Alan Moore, a maioria dos artigos que encontrei enquanto pesquisava para esse texto fica tentando achar subliminares, motivos e conceitos por trás da história. Eu prefiro não criar explicações mirabolantes para algo que eu não compreendo. Minha justificativa (ou desculpa) é que de todas as séries apresentadas nesse texto Do Inferno foi a que eu li há mais tempo, e depois nunca mais reli.
Existe um bom filme dessa historia, mas não é o foco da coluna. A história é muito boa, e é claro que o Alan Moore não podia deixar um personagem tão marcante como Jack o Estripador fora de seus roteiros, como tudo o que esse roteirista escreve há varias críticas políticas e sociais. Vale a pena conferir e julgar por si só. Detalhe importante, nessa história a identidade de Jack é revelada.
Onde foi que eu já vi isso antes? Essa é realmente fácil e óbvia demais, Jack o Estripador realmente existiu e jamais foi capturado ou identificado, as teorias de que ele seria um médico vieram da própria Scotland Yard, devido à precisão cirúrgica dos cortes e mutilações do maníaco.
Até a próxima
Vicente Tavares