Fábio dos Santos e o Capitão 12 Fevereiro, 2009
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Nem todo policial é corrupto, isso todo mundo sabe. Mas quando são eles se tornam o melhor amigo ou o pior inimigo que um traficante pode ter. Depende do pagamento, alias tem que ser tudo certinho com eles. Que ironia. Traficante que não paga o valor combinado morre, quando atrasam também morrem. Funciona como uma loteria, ou melhor, como uma roleta russa. Quando alguém atrasa o pagamento eles escolhem um para servir de exemplo pros demais. É claro que os menores, menos importantes, dançam primeiro.
Essa noite Fábio dos Santos tinha o bilhete premiado, e já sabia disso, por isso corria desesperado pelas vielas da favela onde morava. Seu problema tinha sido a concorrência desleal dos policiais. Por azar ou vacilo Fábio havia sido pego numa revista por um policial novato na área. Levou não apenas o dinheiro do pagamento como todo o pó que tinha para vender. Grande! Numa única noite atrasaria a entrega da mercadoria e o pagamento do fornecedor.
Sua ingenuidade foi achar que o Capitão ia “aliviar” o lado dele, quem sabe dar mais uns dias para que ele recuperasse o dinheiro.
– Ta me achando com cara de otário? – disse o capitão antes que Fábio completasse a frase. O tabefe acertou no mesmo lugar que o novato havia batido, há poucos minutos.
Esses putos devem fazer mira pra bater sempre no mesmo lugar.
É claro que o capitão não ia perdoar a divida, nem esperar mais num minuto sequer.
– Cadê minha grana, vagabundo? – o clique seco da arma engatilhada fez com que Fábio perdesse o juízo de vez.
Que outra escolha tinha? Era tomar um tiro na cabeça ou tentar fugir e levar um tiro nas costas. Escolheu a segunda e deu um soco que pegou o capitão de surpresa. Ninguém era louco de tentar bater no capitão. Só um cadáver ambulante como aquele desesperado que descia a favela aos pulos indo para lugar nenhum.
O tiro do policial passou raspando na cabeça de Fábio e começou a perseguição. Fábio tinha duas coisas a seu favor. O elemento surpresa e o conhecimento da favela. O capitão acostumado com anos de corrupção estava fora de forma, mas tinha a obstinação, uma 9 mm e boa pontaria. A caçada estava equilibrada e ambos seguiriam até os limites de suas forças. Um movido pelo desespero de continuar vivo, outro pela obstinação de sua maldade. Ninguém poderia ficar devendo ao capitão, dar-lhe um soco e ainda ficar vivo. Tinha que servir de exemplo.
Fábio desceu a favela até chegar ao asfalto. Ali talvez pudesse se esconder ou roubar um carro, ou melhor, uma moto e fugir. Daria um jeito de buscar sua mulher e seu filho depois. O mais importante agora era sobreviver. E quando saiu da favela viu uma chance se abrir à sua frente. O “beco do gato” seria sua salvação, pois onde terminava a viela começava o desmanche do Alemão. Numa noite escura como aquela seria fácil se esconder no meio dos carros. Talvez até armar uma emboscada com seu revolver .38. Só precisava pular o alambrado que dividia a vida de sua morte.
Foi aí que ouviu o som da sua própria morte. Não no estampido de uma arma, mas na voz de uma criança.
– Pai?
Seu filho Fabinho estava voltando do farol onde vendia balas. Viu o pai entrar na viela e achou estranho.
Quando estava prestes a pular ouviu seu filho. Ele sabia que se o capitão encontrasse seu filho ali certamente o mataria. Precisava escondê-lo.
– Merda, moleque, que porra você ta fazendo aqui? – Gritou exasperado e sem explicar nada jogou o filho com força no meio dos sacos de lixo que entulhavam o beco. Em meio as lagrimas e duvidas Fabinho esboçou uma pergunta que foi silenciada por um saco de lixo que lhe tapou a cara, escondendo-o por completo.
– Nem um pio e não se mexe – gritou a ordem para o filho e ficou ali no meio do beco empunhando o revolver que tinha consigo. Sabia que só teria uma chance, talvez nenhuma.
Não havia mais tempo para fugir, sua ultima chance, se tivesse, seria acertar o capitão assim que aparecesse na viela. Mas só teria essa chance se o capitão estivesse distraído. Teve sorte. Ali, bem no meio da viela o capitão apareceu caçando sua presa.
Blam, blam, blam.
Três tiros. Bem no peito. Num baque surdo com a violência do impacto das balas o capitão caiu no chão. Fábio tremia dos pés à cabeça. Não que fosse o primeiro homem que matava, mas porque tinha a certeza que morreria ali.
– Vacilou capitão. – falou ele se aproximando do corpo para comprovar a morte. Mirou na cabeça para um último tiro, mas recuou. Não tinha a frieza necessária para isso.
Baixou a arma e virou caminhando devagar para dentro do beco para levar seu filho pra casa. Aceitaria a oferta da esposa, tantas vezes rejeitada, de largar tudo e ir para o nordeste onde uma pequena roça da sogra seria o bastante para sustentar a família. Viveria ainda na miséria, mas seria sem policiais, assassinos, e sem faróis para vender bala e sem drogas para traficar. Fabinho que espiou tudo de seu esconderijo ameaçou sair quando viu o rosto do capitão atrás de seu pai. Quis gritar um aviso, mas a voz não saiu. Seu olhar apavorado, no entanto, revelou ao seu pai que o capitão não estava morto.
Mais três tiros foram disparados, dessa vez da 9mm do policial. Esses não encontraram a proteção de um colete à prova de balas.
Fábio dos Santos caiu morto no chão sem ao menos explicar ao filho que estava protegendo-o quando o jogou no meio do lixo. Mas Fabinho sabia disso e sabia que seu silêncio deveria durar até que o policial terminasse de deixar a viela cambaleando e segurando o peito dolorido.
Fábio viu seu pai morrer naquela noite e chorou. Silenciosamente, como sempre chorava.
Conto do Assaltante 28 Janeiro, 2009
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Eu não sou assassino.
Nem sou criminoso. Escuto uma criança chorando muito alto, ou muito perto de mim e isso me incomoda. O corre-corre é desnecessário. A arma não estava carregada. Eu não sou assassino.
Escuto as sirenes da polícia chegando, não tenho medo, tudo não passa de um mal entendido. O dono da loja está com uma arma apontada pra mim. Ele sim é um assassino. Filho da puta. Olho pra cara do desgraçado e ele está assustado. Sei lá porque me lembrou meu pai.
Eu nunca tive pai. Quero dizer, nunca o conheci, mas acho que devia ser igual esse filho da puta porque largou minha mãe assim que soube que ela estava grávida. Ouvi alguém dizer que ele era casado e minha mãe era a amante, descartável. Acho que ela morreu de desgosto, sempre esperando que ele voltasse. Nunca soube o nome dele, nem o que fazia. Por algum motivo achei que ele era um policial e, mesmo odiando, ele era meu herói. Passei anos sonhando que um dia ele ia entrar pela porta do barraco e levar eu e minha mãe para um lugar melhor.
Quando eu cresci descobri que a polícia quando sobe a favela é mandando bala.
Eu quis ser policial, mas favelado não vira polícia e o mais próximo disse que eu conseguiria era ir preso por algum crime. Mas não perdi as esperanças. Eu sei que tem policial corrupto, todo mundo sabe, mas tem muita gente honesta também.
– Larga a arma, mãos pra cima!
O policial que acabou de entrar gritou isso.
– Ali, policial, aquele com a arma é o assassino. – eu diria isso se adiantasse alguma coisa, mas não dá. Nem vou tentar.
Ah, nem precisei falar. O policial algemou e levou o dono da loja. Bem feito. O outro policial entrou atento procurando comparsas do criminoso, mas só havia ele mesmo. Agora está tudo bem. Bom, mais ou menos.
O policial olha pra mim e eu tento ler o nome dele na farda, mas não consigo focar a visão. Acho que vou precisar usar óculos, está tudo embaçado.
– Olá – consegui dizer pra ele, mas acho que acabei assustando o garoto. Puxa vida só agora eu notei com ele era jovem. Saiu correndo da loja, estava passando mal. Não deve ser fácil ser policial. Tem que ter estômago forte.
Fiquei sozinho na loja. Está frio aqui, acho que devia ter colocado uma blusa. Bem que minha Nega disse pra colocar a blusa. Estava tão linda quando eu saí de casa. Mesmo com aquele barrigão de nove meses sempre dá um jeito em tudo.
– Tudo vai se ajeitar.
Ela sempre falava isso. É claro que nem sempre ajeitava. Na verdade nunca se ajeitavam mesmo. Mas ela dizia… e acreditava. Ah minha Nega eu queria acreditar como você. Acho que eu nunca disse o quanto eu te amo. Nosso filho se for menina vai se chamar Maria, como minha mãe, se for moleque vai ser Fábio. Fábio dos Santos como sempre imaginei que se chamava meu pai. E quando crescer o Fábio vai ser um policial. Quem sabe até virar um capitão?
O policial mais velho voltou. Eu estou ouvindo sirenes de novo, mas não é da polícia. Deve ser a ambulância.
Pra que?
Eu devo estar com uma aparência péssima porque ele fez uma careta horrível quando olhou pra mim.
Acho que eu fiz uma careta quando a Nega me contou que estava grávida porque ela começou a chorar dizendo que ia procurar uma clinica pra tirar o bebê. Eu estava bêbado, mas lembro que bati na cara dela. Ô minha Nega, me perdoa? Mas como ela podia pensar numa loucura daquelas. Agora eu sei que no desespero pensamos absurdos. E se deixar até fazemos absurdos.
O policial está me perguntando alguma coisa, mas não está nervoso como o dono da loja.
– F… Fr… Frio…
Consegui falar para o policial e finalmente entendo o que ele estava me perguntando.
– Que merda você fez aqui?
Eu não fiz nada, foi o dono da loja. Mas não da pra falar tanta coisa.
– F… Fa… Fa… bio.
– Seu nome é Fábio?
Droga, não é isso. Lembrei que não disse pra Nega o nome que eu queria se fosse um menino.
Balancei a cabeça que não e tentei falar de novo, mas engasguei com a própria saliva. Não, não é saliva, é sangue. Tento puxar o ar, mas está difícil. Dois enfermeiros entram correndo e colocam uma máscara de oxigênio em mim. Eu empurro e tiro a máscara. O policial me entende. Gente boa.
– Deixem ele. Ele quer falar.
– Meu filho… menino… Fábio.. Fa… bio.
– Seu filho chama Fábio – falou o policial – Está bem
Fala pra Nega que eu fiz besteira. Queria arrumar dinheiro pra tirar a gente daquele inferno. Mas a arma não tava carregada. Eu não sou assassino. O dono da loja sim. Ele é um assassino. Ele me matou, com um tiro de 12 bem na barriga. Acho que é por isso que está tão frio… e tão escuro.
Lucas e A Tempestade 18 Maio, 2008
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Fiz essa história para contar para meus filhos à noite, antes de dormir. Eles gostaram bastante e ficam me perguntando sobre o que aconteceu com o anjinho e se o Lucas realmente ficou bonzinho. Por isso decidi escrever uma série de histórias com esses personagens. Comentários e críticas são bem vindos. Ilustradores interessados também
Era uma tarde de bastante calor e o pequeno Lucas brincava e corria num emocionante jogo de futebol.
Lucas era um menino de apenas 3 anos de idade, mas muito esperto e muito, muito levado e bagunceiro. Estava sempre correndo e pulando pela casa; sua mãe que o amava muito estava sempre cuidando para que ele não se machucasse.
Naquela tarde Lucas jogava bola com seus vizinhos, o pequeno Cauê de apenas 3 anos e seu irmão mais velho Cauã de 4 anos. A brincadeira estava muito divertida até que a mãe de Cauê e Cauã decidiu que era hora de seus filhos entrarem para tomar banho e jantar.
Lucas bem que tentou convencer a mãe de seus amiguinhos a deixá-los ali um pouco mais:
– Ah, tia! Deixa eles ficarem só mais um pouquinho.
Mas isso não adiantou e lá se foram seus amigos para dentro da casa.
Lucas não conseguia entender porque seus amigos não podiam ficar e brincar, por que eles tinham que entrar bem na hora em que a brincadeira estava tão divertida.
Chorando, e muito bravo ele foi pra dentro de casa.
Sua mãe quando soube o que havia acontecido tentou lhe explicar que no dia seguinte poderiam continuar a brincadeira, mas Lucas estava tão bravo, tão bravo que falou um palavrão e saiu correndo.
Sua mãe ficou muito triste e muito brava com o palavrão que ele havia falado e o colocou sentado em sua cama para pensar sobre a malcriação que havia feito.
Apesar de chorar ele não podia sair de sua cama. Então ele começou a olhar pela janela e viu o quintal onde estava brincando.
De repente começou a chover. Mas era uma chuva muito forte e Lucas ficou assustado com os raios que cruzavam o céu e com o barulho forte do trovão.
Lucas se lembrou do que seu amigo Cauã sempre falava sobre os trovões:
– Quando a gente ouve trovão é porque Deus está muito bravo!
Outro trovão assustou novamente Lucas e ele se escondeu embaixo das cobertas. Ficou ali escondido por algum tempo e então começou a pensar.
Para Lucas Deus havia ficado bravo porque ele fez malcriação para sua mãe, falou palavrão.
– Deus fica muito bravo quando criança fala palavrão – sua mãe sempre lhe dizia.
E agora não poderia ir brincar nem com seus amigos e nem sozinho, a não ser que aquela tempestade parasse. Mas se Deus estava bravo com ele a única maneira de fazer aquela chuva parar era pedir desculpas para Deus e prometer que não ia mais falar palavrão.
Lucas queria pedir desculpas, mas toda vez que ele falava um trovão fazia barulho e Deus não ouvia.
Ele decidiu ir até o céu para pedir desculpas para Deus. Ele saiu debaixo das cobertas e pensou num jeito de ir até o céu e voltar sem que sua mãe percebesse que ele havia saído do castigo. Afinal se ele saísse do castigo sem ela deixar com certeza Lucas ia ter problemas muito sérios.
Mas por mais que ele pensasse não conseguia achar um jeito de ir até o céu, afinal lá é tão alto… quando Lucas já estava quase desistindo ele ouviu um barulho!
Quando olhou para trás viu um menino mais ou menos do mesmo tamanho que ele, tinha os olhos azuis e o cabelo cacheado e bem loirinho, só depois Lucas percebeu que aquele menino era na verdade um anjinho.
– Você é um anjo! – exclamou Lucas
– Sim, eu sou seu anjo da guarda e vim aqui pra levar você até o céu.
Lucas mal podia acreditar, mas é claro que com seu anjo da guarda poderia ir voando até o céu pra pedir desculpa para Deus.
E assim Lucas segurou na mão de seu anjo da guarda e eles saíram voando pela janela, a chuva não molhava e a sensação de voar era deliciosa.
Eles voaram e atravessaram as nuvens e viram o sol brilhando acima da tempestade.
Lucas tocou os pés nas nuvens e percebeu que elas eram macias como algodão.
Seu anjo o levou até o trono de Deus e Lucas viu que tudo ali no céu era bonito. Havia outros anjos brincando, cantando, tocando harpas, flautas e outros instrumentos, era realmente um lugar muito agradável.
Quando chegou diante do trono de Deus Lucas se lembrou porque estava ali, havia falado um palavrão e queria pedir desculpas para Deus.
O pequeno Lucas estava tão envergonhado que ficou de cabeça baixa o tempo todo, não tinha coragem de olhar para o rosto de Deus, pois achava que ele estaria muito bravo.
– Papai do Céu – começou a dizer o pequeno Lucas – Eu sei que falei um palavrão muito feio, mas eu não vou falar de novo, não fica bravo comigo… me desculpa?
Deus sorriu para o pequeno Lucas pois não estava bravo com ele, é claro que ficou triste quando Lucas falou aquele palavrão, mas não estava bravo. Deus então disse:
– Eu não estou bravo com você Lucas, pode ficar tranqüilo, mas volte pra casa logo ou sua mãe vai ficar preocupada, mas para ter certeza de que não estou bravo leve esse pirulito para você, ele é gostoso igual algodão doce.
Lucas mal podia acreditar, Deus não estava bravo com ele e ainda tinha dado um pirulito para ele.
– Obrigado Papai do Céu, vou ser bonzinho eu prometo!
E Lucas pegou na mão de seu anjo da guarda novamente e eles voltaram pra casa. A chuva havia parado e havia um lindo arco-íris, então Lucas e o seu anjo desceram escorregando pelo arco-íris e entraram no quarto.
Bem depressa Lucas deitou novamente na cama e seu anjinho foi embora, nessa hora a mãe de Lucas entrou no quarto e viu seu filho deitado na cama, como se estivesse dormindo.
Lucas levantou olhou para sua mãe deu-lhe um grande abraço e pediu desculpas pelo palavrão que havia falado prometendo não fazer isso de novo.
Sua mãe sorriu e perguntou onde ele havia conseguido aquele pirulito que estava segurando.
Lucas contou sua história de como tinha ido até o céu com seu anjo da guarda e como Deus era bonzinho com as crianças.
À noite quando Lucas ia dormir seu anjinho entrou pela janela e trouxe mais um montão de pirulitos e eles ficaram bastante tempo conversando até que Lucas adormeceu…
Atrás dos Óculos – parte I 15 Abril, 2008
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1.
Vinícius limpou a lente dos óculos e colocou-os novamente. A imagem ainda estava borrada.
Lavou as mãos e saiu rapidamente para a escola, estava atrasado e a escola havia redobrado a segurança por causa de uma série de desaparecimentos que vinham acontecendo com os alunos da sexta série, mais especificamente a sexta série C, que era sua classe.
Em uma semana dois alunos haviam sumido quando voltavam para casa.
Quando chegou ao portão da escola encontrou o inspetor de alunos, o senhor Silvio que estava apreensivo.
- Algum problema seu Silvio? – perguntou Vinícius ajeitando os óculos.
- Não, nenhum, vá logo para sua sala, já está atrasado. – respondeu o inspetor sem conseguir disfarçar sua aflição.
Quando passou em frente à diretoria notou que havia certa movimentação anormal… Havia policiais, professores reunidos. Era por causa dos desaparecimentos, ele sabia.
Subiu apressado até o segundo andar do prédio de sua escola, tropeçou e caiu deixando suas coisas se espalharem pelo chão. Já estava acostumado com as gozações dos colegas, mas não teve como não ficar vermelho de vergonha.
– Que foi quatro-olhos, não enxerga por onde anda? – disse Ricardo chutando o caderno de Vinícius ainda mais longe.
Todos riram, exceto Vinícius.
Ricardo era o típico valentão da escola. Alto, forte, jogador de futebol, popular com os garotos, sucesso com as garotas. Adorava humilhar os mais fracos, especialmente Vinícius.
Era um meio de ele parecer bacana, mas naquele dia Vinícius estava eufórico, realizado talvez. E isso parece ter-lhe dado uma coragem que não era comum.
– Consigo enxergar muito bem, exceto quando tem um idiota na minha frente. – disse se levantando e empertigando-se diante de Ricardo duas vezes maior que ele.
Ricardo armou o braço para dar um soco certeiro que teria feito Vinícius voar, mas foi impedido por André, amigo do brutamonte que percebeu os professores chegando e garantiu que o amigo não se metesse em mais uma confusão.
Antes de entrarem para as salas de aula Ricardo disse explodindo de raiva:
– Você vai morrer quatro-olhos, na verdade já está morto.
Vinícius sorriu discretamente. Um sorriso nervoso.
O professor Gilmar olhou para Ricardo de um modo curioso depois de ouvir a ameaça e durante toda a aula observou o aluno olhando irado para o pacato Vinícius.
2.
Antes que a aula terminasse o professor Gilmar deixou um recado que colocou a todos em estado de apreensão:
– Peço que todos vocês tomem muito cuidado ao sair da escola, não andem sozinhos, e evitem locais isolados, está havendo uma onda de seqüestros na escola, mas o policiamento já foi reforçado e a polícia acredita que em breve os seqüestradores serão presos.
A balburdia seguinte já era esperada, todo mundo comentava o desaparecimento de Douglas, Rogério e Marcos, todos daquela sala.
Ricardo conhecia todos eles, mas não estava sequer prestando atenção no que o professor estava falando, só pensava no final do horário para poder acabar com a raça de Vinícius por fazê-lo de idiota na frente de todos.
O professor Gilmar notou isso.
O intervalo veio rápido e Ricardo passou o tempo todo procurando pelo maldito CDF que saiu correndo assim que o sinal soou.
Vinícius saiu correndo para o intervalo assim que a campainha indicou o final da aula, pois sabia que Ricardo estava apenas esperando uma chance para pegá-lo, mas tinha uma coisa que Ricardo se esqueceu: Vinícius não era burro.
Assim que entrou na sala da diretoria encontrou Daniela sentada diante da diretora, dona Sônia, que passava orientações aos monitores das salas sobre os seqüestros.
– Preciso conversar com a senhora, diretora. – disse Vinícius ajeitando os óculos.
– Aguarde só um momento, por favor, Vinícius, já converso com você.
Vinícius sentou-se na sala de espera e aguardou enquanto as últimas instruções eram passadas. Pensou em como aquilo tudo era inútil. Em breve nada disso seria mais necessário, pois o que estava prestes a falar iria fazer cessar os seqüestros.
Antes de tomar essa decisão Vinícius havia pensado muito, mas percebeu que não poderia viver com esse secreto, tinha que falar.
A primeira pessoa a sair da sala da diretora foi Daniela que parou diante dele e disse as palavras que Vinícius jamais esqueceria:
– Adorei aquilo que disse ao idiota do Ricardo hoje cedo. Ele realmente merecia ouvir aquilo. – ela disse.
– Pensei que você fosse apaixonada por ele, não acha ele bonito?
– Eu acho você bonito.
Depois foi embora deixando Vinícius boquiaberto e absolutamente sem reação.
Quando foi chamado para dentro da sala da diretora nem se lembrava o que ia dizer.
– Fale Vinícius, queria me dizer alguma coisa?
Vinícius respirou fundo, e decidiu-se de vez. Tinha que falar.
– Sim, eu vim contar o que aconteceu com os alunos que desapareceram.
Atrás dos Óculos – parte II 15 Abril, 2008
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3.
Logo depois do intervalo Vinícius não voltou à sala e Ricardo, logo após encontrar um bilhete do quatro-olhos em meio às suas coisas:
“Você acha que é homem, mas não passa de um idiota ridículo.
Sei que quer me pegar na saída, mas se for homem vai me encontrar
no galpão da Rua Doze sozinho, ou será que precisa de platéia ou de seus
amigos para dar conta de um quatro-olhos como eu?”
Decidiu que não deixaria passar em branco a humilhação que tinha sofrido. Talvez Vinícius estivesse acostumado a ser humilhado, e realmente estava, mas Ricardo não.
Assim que o sinal para o inicio da última aula soou, Ricardo juntou seu material rapidamente e saiu da sala, sem dar nenhuma satisfação, sob os olhares curiosos de seus amigos.
Sorrateiramente desceu as escadas e alcançou o pátio, pulou o portão saindo da escola de maneira suspeita. O inspetor de alunos, senhor Sílvio, viu quando o adolescente fugiu da escola, imediatamente avisou a diretora do acontecido.
Dona Sonia não ficou surpresa com a notícia, parecia que já esperava por isso. Lentamente ela tirou o telefone do gancho e discou 190, sendo atendida identificou-se e fez a denúncia:
– Temos motivos para acreditar que um de nossos alunos é um assassino, poderiam comparecer ao galpão abandonado na Rua Doze para averiguar?
4.
Vinícius limpou a lente dos óculos e colocou-os novamente. A imagem ainda estava borrada, mas ele pode perceber o pânico nos olhos de Ricardo enquanto a polícia o levava algemado para a viatura.
Por mais que Ricardo negasse ter assassinado seus amigos a polícia tinha provas irrefutáveis.
Ricardo foi preso em flagrante tentando matar Vinícius com uma faca, a mesma faca que matou outros três alunos que estavam enterrados naquele mesmo galpão.
No galpão para onde Vinícius atraiu Ricardo.
Quando o carro da polícia virou a esquina Vinícius não pode evitar um sorriso sombrio de satisfação. Sua vingança estava completa. Certamente ainda seria humilhado em sua vida, mas não mais por Ricardo, Douglas, Rogério e Marcos.
Não havia nada que o ligasse aos crimes, o culpado já estava preso agora restava apenas uma vida tranqüila, talvez até namorasse Daniela.
Talvez visitasse Ricardo na Febem, talvez não.
Pactos e Mentiras – Parte I 20 Outubro, 2007
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George Shawn caminhava confiante pela rua deserta apesar da chuva forte que caía deixando-o completamente encharcado.
Estava apressado e tenso, pois aquela noite não estava sendo uma de suas melhores e ainda havia mais um encontro antes que os preparativos começassem.
Trezentos anos haviam se passado desde a ultima vez em que aquilo acontecera. Entretanto não era isso que o preocupava, pois sabia o que devia ser feito e sabia como fazer, mas porque aquele mendigo queria vê-lo?
Pela primeira vez em muito tempo Shawn sentiu medo.
Quando chegou ao local marcado, um cruzamento isolado, Shawn respirou fundo controlando a respiração e os nervos.
Sem a visão, precisava confiar em seus outros sentidos para encontrar o que procurava. Imediatamente um cheiro característico chegou às suas narinas.
- Gato? – disse ele consigo mesmo.
O miado veio em seguida confirmando suas suspeitas, mas onde estava aquele homem (se é que podia chama-lo assim) que deveria encontrar?
- não consegue me localizar não é? – disse um mendigo que estava deitado na calçada ao lado do gato.
O gato ronronou quando o mendigo fez-lhe um carinho.
Num movimento ágil o homem colocou-se de pé para revelar, não um mendigo decrépito e raquítico de fome, mas um homem robusto e saudável.
Seu corpo possuía diversas tatuagens, cicatrizes e marcas. Mas havia uma marca que o tornara diferente de qualquer outro homem na Terra.
Uma marca que fazia a morte se afastar dele. A marca da maldição de Deus.
O homem parou diante de Sawn e embora fosse visivelmente menor que o gigante de ébano era claro perceber quem possuía o controle da situação.
- George Shawn – disse com voz firme.
- Caim – disse Shawn num sussurro como se temesse pronunciar aquele nome – Faz muito tempo…
- Talvez pra você, mortal, pois pra mim três séculos são como um instante.
Shawn sabia que aquele ser diante dele era provavelmente a criatura mais antiga na face da Terra, o primeiro homicida, amaldiçoado por Deus, o filho de Adão e Eva exilado do paraíso para as Terras de Nod.
Ironicamente Caim, o amaldiçoado, era pai de Enoque, um enviado da Luz que de tão abençoado ascendeu aos céus sem provar a morte.
Mas Shawn sabia que se havia sido convocado era por um motivo e era importante.
- Acredito que já sabe por que o chamei aqui. – falou Caim
- Eu… – titubeou Shawn – Não, eu não sei.
- Vim cobrar uma velha dívida. – Caim tinha um sorriso malicioso no rosto – Acho que se lembra, não é?
Shawn parou por um momento, seu corpo estremeceu ante a lembrança da dívida que assumira com o amaldiçoado séculos atrás.
Durante muito tempo o medo dessa cobrança o perseguiu como um fantasma. Sempre presente a assombrá-lo. E agora finalmente havia chegado à hora que ele tanto temia.
O que Caim poderia pedir que ele próprio não pudesse fazer? Mas Shawn sabia que Caim era ardiloso e astuto o bastante para manipular as pessoas a fazerem o que ele quer, como agora…
Shawn lembrou-se do dia em que conheceu Caim, séculos atrás, quando ainda era um escravo e faria qualquer coisa para se libertar, até mesmo sua alma venderia.
Foi o que ele disse a Caim.
- Não será necessário. – falou Caim na época – Tenho certeza que encontrará melhor utilidade para sua alma. Mas se eu o libertar me fará um favor.
- Qual favor?
- Quando for a hora de cobrar essa divida eu lhe direi.
Caim naquela época era exatamente igual ao que é hoje, sua aparência permanece inalterada através dos séculos.
Shawn entretanto estava no auge do vigor. Alto, robusto, forte. Era um escravo valiosíssimo e sua dona não aceitaria perdê-lo, ela era apaixonada por aqueles olhos azuis e músculos rijos.
Shawn ainda não havia perdido sua visão, e já era muito poderoso com seus ritos xamânicos, mas ainda assim era um escravo. E odiava aquela situação mais do que tudo, por isso acertou o acordo com Caim sem ressalvas.
Com o passar dos séculos Shawn aprendeu os meios para prolongar sua vida e principalmente aprendeu a temer Caim. Se na época em que era um escravo soubesse o que sabe hoje sobre o amaldiçoado jamais teria aceitado tal acordo.
Entretanto o que estava feito não podia ser mudado e havia chegado o momento de pagar a divida.
- O que quer que eu faça – disse Shawn voltando de suas lembranças.
Pactos e Mentiras – Parte II 20 Outubro, 2007
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- Acredito que conheça um certo David Salvatori? – Caim parecia ansioso e caminhava em volta de Shawn deixando que a chuva o molhasse completamente.
- O membro mais jovem da família Salvatori, filho de Giuseppe Salvatori.
- Sim, o filho bastardo e secreto de Giuseppe, conhece bem a historia, não é?
- Não exatamente. Soube apenas que Giuseppe quebrou os votos e teve um filho, Davi ou David, mas a criança e a mãe morreram no parto, Giuseppe enlouqueceu e sumiu. O que há de especial?
- Duas coisas – falou Caim – Primeiro: Apenas parte dessa historia é verdade. David e sua mãe não morreram no parto e segundo: David é o hospedeiro perfeito para H’taed.
Shawn sentiu seu corpo estremecer por completo num segundo ele compreendeu o que Caim queria dizer.
- David é o Dragão – falou Shawn.
- Correção: David e H’taed formarão o Dragão.
- Porque? Porque David? O que o torna tão especial?
- Os Salvatori são uma linhagem antiga, infelizmente os três últimos Salvatori “puros” que restaram foram Vitorino, Giuseppe e Nathanael.
Vitorino, o mais jovem virou padre e sempre foi fiel aos votos. Nathanael, é estéril e o mais velho Giuseppe nos fez o favor de quebrar seus votos e ter um filho. Um filho, David, que nasceu num raro alinhamento estelar que o concede uma predisposição para o poder incomensurável do Dragão.
- Mas porque não tomou a criança quando ainda era um bebê?
- Quando David nasceu eu fui pessoalmente buscá-la, mas cheguei tarde e a crinça havia fugido com o pai. Eu tentei arrancar da mãe para onde fugiram, mas nem no instante de sua morte ela revelou o paradeiro dos dois.
As palavras de Caim saíram com naturalidade assombrosa, não havia qualquer demonstração de emoção ou sentimento. Era um assassino frio e cruel.
- Soube que a criança foi entregue a uma família nos Estados Unidos enquanto o pai foi para uma ordem religiosa na Europa.
Durante vários anos eu procurei por essa criança sem nenhum sucesso.
Mas tive uma visão. Um sonho que me forneceu uma pista. Uma pista que segui e que me trouxe até esse momento.
Só então compreendi como uma simples criança pôde permanecer oculta todo esse tempo: Havia alguém garantindo que David continuasse escondido. Alguém poderoso e tolo.
- Louis! – concluiu Shawn – Um dos pupilos de Louis chama-se David. Ele é David Salvatori?
- Exato. E se não estou enganado há um dos seus pupilos entre eles.
Shawn assentiu com a cabeça já sabendo qual era o favor que Caim pediria.
- Tudo o que precisa fazer é conduzi-los até o local onde o ritual acontecerá, tire Louis do caminho e o resto H’taed fará.
- Está me pedindo para fazer o demônio mais poderoso do inferno para a Terra.
- H’taed já está na Terra, apenas permanece adormecido aguardando o hospedeiro certo.
-Mas todos esses séculos temos realizado o ritual…
- Apenas para mantê-lo alimentado – disse Caim com desprezo – Para poupar-lhe do trabalho de fazer isso por si próprio.
- Compreenda que o exercito das Trevas nunca esteve tão poderoso. Quando o Dragão surgir será o principio do fim dos tempos.
- Quem vencerá? A pergunta de Shawn permaneceu ecoando na noite em meio a chuva que caia insistente.
O Beco 13 Novembro, 2006
Posted by vicentetavares in Contos.add a comment
A noite estava muito fria.
A cidade parecia mais sinistra e sombria que o normal, talvez fosse pela névoa densa, quase sobrenatural que permeava as ruas ou talvez fosse o silêncio absoluto e ausência de qualquer movimento que transformavam as suas enlameadas numa pintura sombria.
A madrugada avançava, mas não havia luz, apesar da lua cheia, pois pesadas nuvens escureciam todo o céu.
Era uma noite de trevas, daquelas em que os seres que povoam os pesadelos das crianças estavam à solta espreitando.
Em meio a esse cenário lúgubre, um pequeno ser se movimentava quebrando a inércia daquele momento. Um pequeno gato faminto saltou de um telhado sobre um muro. Farejou o ar e perscrutou a escuridão com seus olhos de amarelo intenso e pupilas verticais.
Com seus pêlos completamente negros ele desapareceu em meio às brumas quando saltou do muro para o chão.
Como uma sombra se movimentando rua abaixo o gato observava cada detalhe. Subitamente parou em alerta, farejou o ar novamente para ter certeza. Miou alto na escuridão e, em resposta ao seu chamado, dezenas de gatos surgiram saindo de bueiros, telhados, e latas de lixo.
Logo a rua tornou-se uma fúnebre sessão de miados estridentes.
Seguindo o pequeno gato preto todos os demais avançaram pela rua até pararem diante de um beco imundo e entulhado de lixo, mas o cheiro que exalava não era apenas o lixo, era o cheiro de sangue. Sangue fresco.
Enquanto os gatos lambiam uma poça de sangue na saída do beco, o pequeno gato caminhou lentamente entrando no beco seguindo um filete de sangue até sua origem, como se o pequeno gato fosse realmemnte curioso.
Em meio aos entulhos de lixo havia um corpo jogado com os braços lânguidos num ângulo improvável. Sacos de lixo e jornais velhos cobriam parte do cadáver e escondiam seu rosto.
Subitamente todos os gatos, exceto o pequeno gato preto, miaram alto saíram correndo daquele lugar. Um cheiro estranho permeou o ar.
Alguma coisa assustou os gatos…
Vida de Lagartixa 10 Novembro, 2006
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Então quer dizer que você acha sua vida difícil?
Eu vou contar um pouco sobre a minha vida e veremos o que acha.
Bem vamos começar pelo início.
Meu nome é Slark. Eu sou uma lagartixa, é claro que sou macho! Só porque sou lagartixa tenho que ser fêmea?
Sou ainda bem jovem, não que haja muitas lagartixas idosas aí, mas você entendeu o que quis dizer.
Sou muito pequeno para minha espécie, branquelo e mirradinho, mas até que sou bem charmoso.
Nasci num celeiro bem legal, boa comida, bem quentinho. O lugar perfeito para uma família de lagartixas. Até que aquelas corujas chegaram se achando “donas do pedaço”.
Bem, na verdade, elas acabaram tomando conta do lugar mesmo.
Por isso minha família teve que mudar pelo menos o que sobrou da minha família, a maioria virou jantar de coruja, que pena.
Meu pai, que era o mais forte, ia sempre na frente verificando se era seguro.
Ele era bem esperto, já tinha ido até a casa e encontrou um lugar ideal para ficarmos, bem atrás do guarda roupas. É claro que o difícil seria chegar até lá.
Mas estou me adiantando. Meu pai estava quase lá, faltava atravessar a velha horta e chegaríamos a casa.
Aquela era minha primeira grande aventura e eu estava muito nervoso.
Meu pai colocou a cabeça pra fora da lata de lixo onde estávamos escondidos, verificou se estava tudo tranquilo e disparou a correr quando estava no meio da hora ouvimos um grito:
– Cuidado!!!
O Oitavo Símbolo 18 Setembro, 2006
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A tempestade lá fora parecia querer avisar ao mundo que havia algo errado. O vento uivava dizendo que aquela noite não seria uma noite qualquer.
Era uma sexta-feira, sinistra, fria… Perfeita!
Andrew Scott estava na cabeceira da mesa, os olhos fechados, seus lábios se moviam, não havia som, nenhuma palavra. Apenas a chuva caía sem trégua do lado de fora, um relâmpago ocasional cortava o céu e iluminava os rostos dos cinco jovens presentes na sala.
Não havia luz, apenas a pálida e bruxuleante iluminação de cinco velas postas num pentagrama, sobre a mesa um tabuleiro oui-já (as letras do alfabeto e os números dispostos num círculo além das palavras bem, mal, sim e não) e o copo virado de boca para baixo. O espírito de Anderson não poderia se comunicar com eles sem o copo.
Da última vez que tentaram, exatamente há uma semana, o copo havia se movido na direção de uma letra, mas David Robert, o mais jovem entre eles, havia se assustado e derrubado, sem querer, o copo no chão, espatifando-o em pequenos cacos.
Tentaram novamente naquela mesma noite mas não conseguiram.
O próprio David confessara não acreditar que aquele ritual fosse mesmo funcionar, apesar de suas experiências anteriores com o ocultismo não acreditava que o copo fosse se mover realmente e por isso se assustou.
– Não vai acontecer dessa vez – garantiu David quando, ao iniciar a sessão, todos lançaram olhares em sua direção.
– David, você sabe como isso é importante pra mim – falou Andrew ao amigo.
E sabia mesmo.
David sempre foi o melhor amigo dos irmãos Scott; Andrew e Anderson conheceram David no primeiro dia de aula ainda no primário e desde aquela data se tornaram inseparáveis. Só uma coisa poderia separá-los: a morte, era o que todos diziam.
E de fato foi o que os separou.
Eles voltavam de uma festa, bêbados e Anderson dirigia o carro quando um caminhão veio na direção contrária, nem mesmo a adrenalina injetada em seu cérebro pela situação de perigo extremo foi capaz de lhe devolver os reflexos entorpecidos pelo álcool.
Com o impacto, Anderson foi lançado para frente e de volta para trás, quebrou o pescoço instantaneamente.
Andrew, no banco de trás com David, apesar de se ferir gravemente nas ferragens que lhe atravessaram o abdômen permanecia num estado intermediário entre a consciência e a inconsciência.
David batera a cabeça violentamente e jazia inconsciente, mas bem.
Quem sofrera com o impacto foi o quarto passageiro, sentado no banco da frente.
Nicholas Slatter foi arremessado para fora e estava caído sobre o capô, seu estado era gravíssimo, estava vivo, mas por pouco tempo se não fosse socorrido.
A lembrança do acidente veio a mente de David, mas ele a afastou como uma mosca incômoda, e era fato que desde a morte de Anderson, Andrew não foi mais visto sorrindo.
Apenas para aplacar a dor do amigo que David havia concordado com a sessão mediúnica, não acreditava realmente naquela besteira, daí seu espanto quando o copo se moveu.
Todos ao redor da mesa estavam preparados, eram os melhores amigos de Andrew e se ele precisava de uma sessão mediúnica para falar com seu irmão morto, então todos ajudariam.
A idéia viera de Alan Walker, o sempre esotérico Alan, que se achava especial por ser o sétimo filho da família Walker, morava sozinho com sua mãe, próximo a Universidade. Acreditava que sua existência se deu para que cumprisse um papel vital na ordem cósmica das coisas, o que quer que isso signifique.
Alan Walker na verdade, não possuía conhecimento para uma sessão mediúnica, foi então que Steve Seigner decidiu intervir, tinha livros sobre ocultismo, dizia entender de rituais (embora nunca houvesse realizado nenhum) e era experiente nessas coisas.
Conheceu Andrew e os outros quando os socorreu das ferragens do acidente de carro, depois disso tornou-se grande amigo de todos.
Nicholas Slatter foi o primeiro a ser socorrido por Steve e estava ali apenas para acompanhar seus amigos, não duvidava dessas coisas pois ele próprio havia experimentado uma visita ao outro mundo, quando foi um internado após o acidente. Estava em estado crítico e teve sua morte oficialmente decretada por um médico depois de permanecer em coma por uma semana.
Despertou no necrotério exatamente sete horas após sua morte…
De uma forma ou de outra cada um que estava naquela sala havia experimentado as forças do oculto e juravam poder sentir tais energias fluindo por todo seu corpo, cada célula pulsando em energia mística.
Estavam ali os cinco pseudo-ocultistas sentados de olhos bem fechados, pois não deveriam ver, mas sentir. Somente seus lábios se moviam numa reza silenciosa, pois não deveriam falar, mas ouvir.
E ouviram.
Ouviram a tempestade cada vez mais enfurecida, como se quisesse impedi-los de prosseguir; se tivessem com as janelas do apartamento abertas poderiam ver que as nuvens se contorciam em formas hediondas e grotescas.
Mas tudo estava fechado.
Cada porta, janela e fresta do apartamento, mas sentiram uma brisa suave, porém gélida atravessar o aposento e seus olhos se abriram, simultaneamente sem que a reza silenciosa fosse interrompida.
Lançaram olhares furtivos a David, como se verificassem se o amigo suportaria.
David retribuiu-lhes com um olhar de determinação.
O ar à volta de todos tornou-se gelado… Estava acontecendo…
Um calafrio percorreu a espinha de Andrew, tinha a certeza de que um dedo gelado havia lhe tocado as costas de baixo à cima, mas não havia nada nesse mundo ou em outro que pudesse desvia-lo do seu objetivo.
Um leve tremor varreu a mesa.
Estava acontecendo…